10.12.16

COMIGO MESMO - VIII


Eu entrei para o Colégio logo em 1957. Fui quase da fundação. Os rapazes e as miúdas estavam separados por um gradeamento não muito alto, com uma sebe florida. Sempre achei que namorar não faz mal, embora sempre fosse excessivamente tímido com miúdas. A minha primeira experiência sexual foi aí mesmo, junto à sebe. Quando tentava aproximar-me de uma pequenita com trancinhas pretas, fui mordido por um zangão de enormes proporções que só podia ter fugido de uma qualquer jaula do Jardim Zoológico. Não me recordo do nome dela, mas das trancinhas sim. O polegar infligido ficou descomunalmente disforme e desde aí sempre associei picadas de abelhas a provas de amor. Namorar é perigoso!

8.12.16

COMIGO MESMO - VII


A carrinha “pão-de-forma” vinha-me buscar logo de manhã cedo para o colégio. Era o Colégio Príncipe Carlos (o das miúdas chamava-se Princesa Ana). O Colégio ficava fora de portas na Estrada das Laranjeiras, nº191 (Sete Rios), em parte do Palácio dos Condes de Farrobo, conhecido por Palácio das Laranjeiras. Vem a propósito, e apenas como curiosidade, lembrar que a expressão “farrobodó” (de onde deriva o estilo musical brasileiro “forró”) querendo significar festança, festejo animado, baile de arromba, algazarra ou confusão, vem precisamente da época em que, no século XIX, o 1º Conde de Farrobo – Joaquim Pedro Quintela – aqui dava sumptuosas festas que maravilharam a cidade e que ficaram para sempre no imaginário lisboeta.

7.12.16

COMIGO MESMO - VI


À tarde, sentado na janela, com as pernas magritas para fora da balustrada, anotava religiosamente todos os carros que passavam na Rua Bernardim Ribeiro, respectivas marcas e matrículas. À noite apresentava, responsavelmente, o relatório do dia ao meu pai que, ainda fardado e vindo algures de um qualquer exótico local das Forças Armadas, tomava conta da ocorrência. Os carros eram tão poucos que em breve comecei a tomar nota da cor e do número de passageiros transportados. Nada que prejudicasse drasticamente o relatório final, nem que impedisse as conclusões estatísticas do meu pai.

6.12.16

COMIGO MESMO - V


Em Lisboa a vida era monótona. A Rua Ferreira Lapa não tinha saída. Logo ali a 50 metros da casa a rua batia no muro altíssimo que protegia o Hospital Miguel Bombarda, ou talvez nos protegesse a nós dos loucos que lá estavam em tratamento psiquiátrico.
A casa fazia esquina com a Rua Ferreira Lapa e a Rua Bernardim Ribeiro. Um rés-do-chão enorme, com dois corredores a perder de vista. Eu jogava à bola contra mim mesmo no corredor comprido. Chutava e corria para o outro lado para defender o meu próprio remate. Voltava a chutar ao contrário, voltava a correr para trás e assim sucessivamente até à total exaustão futebolística.
Ser filho único tem destes inconvenientes. Temos de brincar sozinhos. Aliás, ser filho único tem coisas boas e más. Coisas boas, é ter todas as atenções concentradas em nós. Coisas más, é ter todas as atenções concentradas em nós.

5.12.16

COMIGO MESMO - IV


Quando tinha 10 anos, morava ainda na Rua Ferreira Lapa nº 7, em Lisboa, vínhamos ver a evolução da casa nova. Eu brincava nas fundações. Via nos caboucos abertos um labirinto de trincheiras. Uma guerra imaginária com ferros espetados em riste, representando um qualquer inimigo brutal. Corria por entre aqueles ferros como se fossem baionetas que me queriam trucidar. Escapei de ataques virtuais e de exércitos em marcha forçada. Acabei quase em coma. Um ferro traiçoeiro espetado na coxa. Evacuado em maca, qual ferido em combate. Levei uma injecção contra o tétano, daquelas que doem mais que a própria ferida. A marca ainda cá está. Naquele tempo, não tinha a menor noção que a casa de Nova Oeiras iria ser a minha para o resto da vida.

4.12.16

COMIGO MESMO - III


Curioso é que a minha mãe, há medida que envelhece, e particularmente depois da morte do meu pai, vai falando da localização da casa num tom dubitativo. Repete sem cessar, nos almoços dominicais, a mesma interrogação que todos já sabemos de cor, Como vim eu parar a Oeiras? Com isto ela quer dizer várias coisas: como uma pessoa de Bragança veio parar aqui; porque não ficou no Porto, onde está quase toda a família; finalmente, já que trabalhava em Lisboa, porque decidiram mudar para Oeiras.
Com o passar do tempo, e há medida que vai repetindo a dúvida, acrescenta um certo tom negativo. Ela acha que foi asneira mudar para tão longe do sítio onde trabalhou anos a fio. Os 20 km para Lisboa e os 20 km de regresso eram estafantes. Os engarrafamentos, uma perda de tempo, enervante e irritante… Podiam ter pedido o empréstimo e comprado um andar em Lisboa. Sente-se responsável, porque acabou por ser ela a forçar a compra em Nova Oeiras. O meu pai estava em Paris e sempre teve pouca iniciativa para negócios familiares. Foi ela que decidiu e avançou.
Às vezes apetece-me dizer-lhe que não há “ses” na vida. Se não tivéssemos vindo para Oeiras, eu não teria conhecido quem conheci, não tinha tido os dois filhos que tenho, não teria a Sofia como neta. E isto sim, seria verdadeiramente um grande “se”.

3.12.16

COMIGO MESMO - II


A minha mãe ia a Paris levar os projectos da casa. O pai estava a fazer um curso, na École Supérieur de Guerre, no Champs de Mars, bem à frente da Tours d’Eiffel. Ali permaneceu dois anos, de 1959 a 1961, precisamente no tempo em que a casa foi projectada. Ele tinha de aprovar. Fazia ligeiras alterações que estão, aliás, anotadas nas plantas da moradia. Sim, que o meu pai era militar mas podia ter sido arquitecto, engenheiro, pintor ou mesmo escultor. Podia ter sido o que quisesse. E foi assim que a casa ficou virada a Oeste, de trombas para a casa do lado, em vez de ficar virada a Sudoeste, desfrutando do acesso directo ao jardim.
A verdade é que, naquele tempo, o conceito de jardim era muito intelectual. Coisa de excêntricos paisagistas. O conceito era mais de quintal. E para quem vinha da distante Bragança, a horta estava indelevelmente integrada no ADN familiar. Dividir os 700 metros quadrados de terreno não construído em leiras de couves-galegas, tomate, alface, cenouras, árvores de fruto variadas e umas quantas galinhas poedeiras legorne, era a transposição para a cidade da aldeia mitificada. Foi isso que foi feito pelos meus pais. Usar o terreno não para disfrutar, mas para agricultar. Um conceito que hoje volta a estar na moda.